SEJA HYPE VOCÊ TAMBÉM

A CONVERSA QUE NÃO TIVEMOS

1 810

Get real time updates directly on you device, subscribe now.

Ontem me despedi sem saber. Você me entregou a chave que achou que era a minha e eu reconheci sem trocarmos uma só palavra. Disse o que queria dizer, e eu te ouvi como queria te ouvir, ainda na tolice de achar que você seria eterno e sempre voltaria, afinal, permanecer é uma das cláusulas do seu testamento. Beijei sua mão por isso e por toda a vida que me habita.

No estacionamento vi três penas. Essa sou eu, que busca sinais e sentidos em tudo que aparece na frente. Não é com qualquer coisa. Três penas é sinal pra caramba, a licença poética perfeita para inventar essa história. Percebi que a árvore antiga na frente da sua casa teve que ser arrancada. O motivo é justo, mas nunca o suficiente. Assim como o seu seguir de rumo.

No sonho, estou na quadra, como num jogo de videogame. Poderia ser um teste ou algo do tipo. Disseram que eu passei, embora não me lembre o motivo. A sensação quando acordei é que faltava alguma coisa.

Mesmo sem a árvore antiga, mesmo sem seu corpo, reconheço sua alma como herdeira que sou. Me lembro de um texto que escrevi sobre a vida, o desequilíbrio do dia, a experiência. Tinha uma frase bonita, dessas que servem para se orgulhar por eu ter criado. Grande bobagem. Mas fui eu mesmo. Algo parecido com ‘ levante o dedo e balance com a vida.’ Num português mais tosco seria ‘pode vir, que essa bola é minha.’

Leia Mais...

Na beirada

CAOS

A chave de casa

1 of 3

Lembro também que por conta dessa avidez em viver, recebi o conselho de uma pessoa cara que disse um negócio que nunca saiu de mim. Eu ainda com uns vinte e poucos anos, com tanta poeira pra comer e nem sabia. O desejo dessa pessoa era que eu pudesse ir e vir sem me danificar. Não se danificar é a melhor coisa que podemos fazer por nós mesmos. O que não significa que vamos passar ilesos, mas se danificar é sério, me parece algo sem volta. A one way bad trip. Sem retorno.

Nem sei, viu. Depois da sua partida sigo ocupando esses espaços vazios enormes que você deixou como rastro. Estou conectada com essa lei da física, a de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, no tempo e espaço. Ainda tenho minhas dúvidas, mas ela tem funcionado. Algo se opera nas saídas e entradas de cena, um rearranjo das peças do tabuleiro, que libera um fluxo.

Recebo tudo. E comendo a poeira desse chão, percebo que a melhor forma de te honrar é devolver com mais vida. Você foi tão corajoso em tudo que tocou, fez exatamente o que quis fazer, até quando ninguém entendia ou não concordava. Que história, que legado, que saída de cena com maestria. Poucos sabem se retirar na hora certa. No auge dos aplausos. No grito de bis.

No sonho não sei como venci o jacaré – era para ganhar? A árvore se foi. Dois aviões cruzam o céu em direções opostas, mas não se chocam.  No silêncio real e interno, as estruturas se modificam. Recebo a chave, olho para o vazio, respiro. Estou viva no jogo, vô.

Get real time updates directly on you device, subscribe now.

1 Comment
  1. Dantas says

    Somente quem conheceu e conviveu com “Ele” entendem essas lindas palavras que mostram um pouquinho dele. ❤️❤️❤️

Leave A Reply

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.