A figura paterna

Indo de encontro ao habitual consumismo da data, o professor de Ética da Mackenzie, Gerson de Moraes, faz uma oportuna reflexão sobre a paternidade.

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Falar em figura paterna em tempos líquidos não é uma tarefa fácil, seja porque vivemos numa época onde a figura do masculino é bombardeada de todos os lados, ou, simplesmente, porque nos falta uma certa glamurização, que sobra na figura materna. Sobre as mães é mais fácil escrever.

Diante delas, os poetas se enchem de inspiração que brota das entranhas e flui com naturalidade. Os filhos, por sua vez, são tomados de memórias afetivas que colocam as mães num patamar quase angelical, basta lembrar que quase ninguém briga com o outro porque teve o pai xingado, mas se a mãe é ofendida, a confusão está formada; o mercado, – vilão para uns e herói para outros – por sua vez, parece ter uma capacidade enorme e inesgotável de se reinventar e oferecer um sem número de produtos para elas.

Na prática sabemos como é: para as mães, com todo merecimento, geladeiras, smartphones; já para os pais, “uma lembrancinha singela”, como um par de meias ou talvez uma camisa. É a vida amigo, acostume-se!

Suspeito, no entanto, que seja desta forma por razões sociais e históricas, pois não é verdadeiro que amamos mais nossas mães do que nossos pais – como se pudéssemos medir o amor devotado por meio de mercadorias -, mas é fato que nós, pais, ocupamos um lugar diferente na organização familiar se comparados à figura materna.

Coube à figura paterna, desde priscas eras,  assumir uma posição de destaque no seio familiar ou, como se dizia antigamente, de ser o “cabeça da casa”, e isto, trouxe responsabilidades culturalmente construídas que deixaram o papel dos pais mais difícil de ser executado. Afinal, eles tiveram que ser referências dentro do clã – e isto, implicava ser um paradigma de liderança com toda austeridade que a função exigia –  e, ao mesmo tempo, exercer o ato de amar sua prole, sem que isso parecesse sentimental demais, pois a figura do macho, do lobo alfa, colou-se imediatamente na figura paterna e, desde então, ambas caminham como irmãs siamesas.

Deduz-se daí que a figura paterna colocou-se numa encruzilhada, onde a autoridade do líder teve que ser exercida de forma quase que inquestionável por um lado, mas por outro, tinha que ocorrer o exercício do cuidado providencial, daquele que amava sua família, mas precisava dosar tal atitude para não perder credibilidade. Claro que,  em um cenário como este, a tensão é a marca registrada. Nesta tensão, muitas relações de amor e respeito entre pais e filhos foram construídas, mas claro que, também, muitas relações de ódio foram tecidas, pois muitos pais, não sabendo lidar com este paradoxo, acabavam abusando de sua autoridade e tornando-se autoritários e anacrônicos no exercício da função paterna. Com isto, a figura paterna foi sendo desmanchada, diluída, foi sendo carcomida nem suas bases. E é claro que isso não é nada bom.

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O que precisa ser resgatado imediatamente é o equilíbrio da função paterna, o meio termo entre a autoridade e o cuidado.

Inúmeras pesquisas têm demonstrado a tragédia nos lares brasileiros em função da ausência da figura paterna. Segundo levantamento feito pelo Ministério Público de São Paulo, dois em cada três menores infratores não têm a figura paterna dentro de casa.

A pesquisa foi feita com 1.500 jovens de 15 a 18 anos, entre 2014/2015 e demonstrou que 42% não vivem com os pais ou não têm contato algum com eles. Quando a figura paterna não está presente no lar para ser uma referência, tal função pode ser assumida por qualquer pessoa, inclusive, pelo traficante da região ou pelo bandido mais renomado do bairro.

Pense nisto pai! Você não é descartável e nem secundário, você é simplesmente diferente com suas atribuições que foram sendo construídas, histórica e socialmente, mas a sua presença pode fazer uma diferença enorme na vida de seus filhos.

Feliz Dia dos Pais!

Gerson Leite de Moraes é professor de Ética da Universidade Presbiteriana Mackenzie – Campinas

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