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ALYSSON MUOTRI: menos cadeiras de rodas

Alysson Muotri e as células- tronco

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Alysson Muotri é formado pela Unicamp e com doutorado na USP. Ele está à frente de uma equipe que conseguiu, pela primeira vez, um grande feito.  Ela demonstrou o efeito de células-tronco neurais no tratamento de lesões da medula em um modelo de animal de grande porte. O trabalho completo foi publicado na renomada revista Science Translational Medicine.

Professor PH. D da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, onde dirige o Programa de Células-tronco, Alysson Muotri é cofundador da startup de biotecnologia Tismoo. Trata-se do primeiro laboratório do mundo dedicado, exclusivamente, à medicina personalizada. Ele foca no Transtorno do Espectro do Autismo e outros transtornos neurológicos de origem genética.

Avanços na reconstrução da lesão de medula

Neste bate-papo, o pesquisador Alysson Muotri conta como sua equipe conseguiu fazer com que as células reprogramadas da pele se tornassem neurônios e glia. “Observamos que essa reconstrução permite que o sinal elétrico do cérebro seja restabelecido na medula espinhal, ou seja, ele reconstrói a lesão”, diz Muotri.

Segundo ele, o objetivo do estudo é revolucionar uma área da medicina dominada pela biônica. “Não queremos cadeiras de rodas mais sofisticadas, queremos ver o indivíduo voltar a andar com os próprios membros”, explica o pesquisador.

Muotri diz que objetivo de sua equipe é revolucionar uma área da medicina dominada pela biônica

A entrevista

Para facilitar a compreensão dos nossos leitores, gostaria que o sr. explicasse qual é o papel das células-tronco neurais no tratamento de lesões da medula.

Uma das possibilidades mais interessantes da medicina é a utilização de células-tronco como forma de regeneração tecidual. Mas a medula é um lugar ingrato! A lesão induz uma série de respostas neuro- inflamatórias que inibem as células-tronco de fazer regeneração.

 Qual foi o animal usado como cobaia nesta promissora experiência?

Nessa pesquisa usamos o porco como modelo, porque o tamanho da medula desse animal é semelhante àquela dos humanos. Outros estudos usam animais de pequeno porte, como roedores ou macacos, que não recapitulam as dimensões da medula em humanos.

Cenário da pesquisa no Brasil

  De forma geral, como o sr. avalia o cenário da área de pesquisas no Brasil?

Até onde eu sei, está péssimo. Estou fora do Brasil há quase duas décadas. Meu conhecimento da ciência brasileira é limitado. Ele vem por meio da mídia e do contato com pesquisadores brasileiros.

O que o levou a sair do país?

Sai do Brasil em 2002. E acabei decidindo seguir carreira acadêmica nos EUA por duas razões. Primeiro, por conseguir desenvolver e contribuir com a ciência brasileira servindo de ponto de contato/colaborador no exterior. Segundo, por conseguir fazer ciência de ponta, de impacto e transformadora, em um dos melhores ambientes acadêmicos do mundo. Acredito que tenha conseguido atingir esses dois objetivos nos últimos 10 anos.

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Medidas paliativas

 Atualmente, os pacientes com sequela de trauma medular estão se beneficiando de estratégias que possam melhorar sua qualidade de vida?

Atualmente existem medidas paliativas para melhorar a qualidade de vida desses pacientes. Infelizmente, muitas dessas terapias são caras e não, necessariamente, disponíveis para todos os indivíduos.

 Como as pessoas interessadas em beneficiar-se dessa linha de investigação e pesquisa podem informar-se melhor sobre os avanços no tratamento de reconstrução da medula?

Acompanhando os ensaios clínicos que acontecem aqui: https://health.ucsd.edu/news/releases/Pages/2018-06-01-stem-cell-based-phase-I-trial-to-repair-spinal-cord-injuries-produces-encouraging-results.aspx.

Sem cadeira de rodas

 Quando o sr. imagina que pessoas que sofreram lesões na medula espinhal, vítimas de trauma, isquemia ou de esclerose lateral amiotrófica, poderão beneficiar-se dos avanços da medicina biônica?

Não trabalhamos com a medicina biônica. Mas, pelo que entendo, o objetivo da biônica é melhorar a mobilidade, não regenerar o tecido. Não queremos uma cadeira de rodas mais sofisticada. Queremos fazer o paciente voltar a se movimentar usando o próprio corpo.

Qual é o custo desse tratamento?

Não saberia dizer o custo exato, mas será um tratamento caro, no início. No entanto, quando comparamos com o custo ao longo da vida inteira do indivíduo, o valor será irrelevante. Digo isso porque, nesse caso, as seguradoras de saúde irão optar por pagar esse tipo de tratamento. Melhor do que pagar por métodos paliativos pelo resto da vida do paciente. 

Mais sobre Alysson Muotri

Muotri é pesquisador do Instituto Salk para Estudos Biológicos, em La Jolla, San DiegoCalifórnia.   Ali ele realiza pós-doutorado em Neurociências desde 2002. Seu trabalho aborda temas da fronteira da genética e biologia atuais, como o desenvolvimento dos neurônios e as células-tronco. O cientista destacou-se recentemente ao conseguir “curar” um neurônioautista” (com Síndrome de Rett, um tipo grave de autismo) em laboratório . Ele, também, abriu as portas para o desenvolvimento de uma droga eficiente eficiente contra essa complexa síndrome. O feito foi publicado na revista científica Cell.

Menção honrosa

Muotri é formado em ciências biológicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com doutorado em biologia genética pela Universidade de São Paulo. Ele tem experiência na área de genética, com ênfase em genética humana e médica. O especialista atua, principalmente, nos seguintes temas: reparo de DNA, vetores virais, câncerterapia gênica e modulação gênica. Foi um dos primeiros pesquisadores brasileiros a cultivar células-tronco embrionárias.

O geneticista paulistano já publicou mais de 20 artigos nas mais respeitadas revistas científicas. Em 2000, recebeu a menção honrosa para trabalho científico da Sociedade Brasileira de Virologia.

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