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A armadilha de uma vida mínima

Na fartura, menos pode ser mais. Na escassez, menos é apenas menos.

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Montada em slides, a piada do e-mail mostrava fotos de pontos de ônibus ao redor do mundo. Todos muito urbanos e avançados. Ao final, exibia um ponto brasileiro. Era feito com palha e madeira, perdido em uma rua de barro solado.

Para um brasileiro, a piada é clara. Ela faz chacota com nosso atraso urbano. Surpreende pensar que o gracejo talvez não faça sentido para alguém de um país com alta urbanização. É possível que esse alguém até mesmo elogie o “bucolismo” brasileiro.

De onde viria o elogio desse suposto estrangeiro? Em parte, de seu tédio por paisagens urbanas. Mas talvez seja mais do que isso. Em países de consumo avançado, surge um ideal de vida mínima. Há até mesmo quem fale de um “novo capitalismo”, ter menos e curtir mais.

Essa tendência é ilustrada em “Minimalistas”, documentário de um serviço de filmes via streaming. Nele, jovens relatam como decidiram levar vida simples e frugal. Moram em residências de um cômodo. Vão e voltam de ônibus, de bicicleta, a pé.

A ideia pode fazer sentido. Existe um limite para nossa capacidade de consumir a riqueza que acumulamos. Não podemos comer mais do que a média. Não podemos dirigir três carros. É razoável acumular somente até o ponto em que iremos realmente nos beneficiar.

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Apesar disso, existe um limite nessa lógica. Curtir demanda ter. Para um brasileiro, esse é um fato evidente. Para alguém de um país desenvolto, pode ser difícil entender. Afinal, o “novo capitalismo” surge em países avançados. Neles, “ter menos do que menos” é opção.

Para esses minimalistas, sempre é possível voltar a viver uma “vida máxima”. Além disso, os acessórios desses lugares – segurança, urbanização, transporte, educação – compensam os limites dessa vida reduzida. É fácil dispensar o carro quando o transporte público é melhor.

E como seria em países de “consumo atrasado”? A vida mínima deixa de ser opção e vira necessidade. E o pior, sem os atenuantes de uma vizinhança limpa, bonita, educada e segura. O ideal de “menos é mais” aqui não existe. Menos é simplesmente menos.

A “armadilha de uma vida mínima”, portanto, existe na diferença entre opção e imposição. Em países de maior consumo, é possível consumir mais. Em países e menor consumo, não há essa possibilidade – e talvez por isso seja incoerente sugerir ali uma vida mínima. Ali ela já existe.

O sentido de “mínimo” fica dessa forma dividido entre dois mundos. Como a piada do e-mail, ele pode ser entendido de duas formas: uma entusiasmada e outra, nem tanto. No caso do estrangeiro, pode ser debalde tentar explicar a piada. Realmente, a frugalidade soa bela quando é opcional.

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