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Às cegas ou episódio de uma não crítica

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Enquanto minha alma sopra eu transcrevo. Sobre coisas partidas tenho pouco a dizer. Eu achei que fosse falar de los abrazos rotos, mas infelizmente eles não estavam quebrados o bastante para me estimular.

Eu nunca estudei os vinhos, mas eu sabia qual era o melhor. Talvez eu já soubesse – sem saber – o que mais me agradava, porque eu não conhecia, nem o nome, nem o ano do conteúdo das taças.

Eu até gosto de um ritmo lento, onde as histórias vão se assentando, e eu sentada numa cadeira, percebendo.

A sensibilidade é o que importa. Ela é a chave de muitas respostas. Enquanto eu experimentava, cheirando, sorvendo, engolindo, eu me surpreendia. E a verdadeira experiência da surpresa vem assim mesmo, anônima.

Eu gosto de pessoas sentadas à mesa para dividir uma refeição. De preferência, enquanto uma estiver falando, a outra ouvindo. Gosto dos livros e filmes que se aprecia em silêncio, geralmente quando um dos personagens mais interessantes é escritor ou diretor ou um buscador. Nesse ponto, prefiro mais Woody que Almodóvar.

Não me lembro quando foi que parei de me mover. Estou momentaneamente apreciando uma paisagem ao redor. Eu fico parada, e o que muda é o cenário, os roteiros e as pessoas. Estou momentaneamente apreciando uma vista fácil. Eu não vou, é ela que vem.

Apesar da beleza à 360 graus, estive inquieta, e por duas ou três vezes busquei as horas. Viver às custas de sentir as coisas sem manual de instruções tem dessas vezes, em que o filme simplesmente não vai agradar.

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Joy

Gostei das cores das novas flores que brotaram, e até onde sei, sou a única responsável pela preservação da minha horta. Decidi, antes do primeiro gole, não saber o nome do vinho que provarei, ou não ler a resenha do filme que verei. Isso já está decidido. É passado dando contornos a um futuro.

Pensei que escreveria sobre coisas partidas e reconstruídas. Até tinham umas fotos rasgadas que alguém remontou, e um filme que o diretor reeditou. Às vezes as histórias têm mesmo de ser revisitadas para ganharem um sentido.

Entretanto, parar de traduzir as experiências pode significar um pouco mais de tempo para viver aquilo que não tem tradução. Seja para esbarrar em quem não se conhece, para tirar poeiras debaixo dos tapetes, para cuidar melhor do que precisa ser dito. Ou, para não escrever sobre os abraços que se partiram.

E quando bater um vento de tédio, ter disposição para buscar uma sabedoria inexistente, que me semeie perto de crianças. Para elas tudo é tão simples. “Não quero que você me beije”, “eu quero um sorvete”, “olha o peixinho”. Não existe nada mais simples e verdadeiro do que uma criança. Elas vivem o mundo às cegas, sem legendas. Mesmo que seus dedos curiosos tomem choque na tomada, e seus abraços nem tenham se quebrado ainda.

Flávia Dalla Bernardina

flaviadalla@hotmail.com

www.tubodeensaios.com.br

 

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