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CAOS

“Caos “ é o recente trabalho da InPares, companhia de dança contemporânea, com produção e dramaturgia de Paulo Sena e concepção e direção coreográfica de Gil Mendes.

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Em cena, a ousada tarefa de traçar, em cinco momentos distintos, algumas questões políticas e filosóficas da humanidade, dos primórdios aos dias atuais em atos simbióticos denominados: o girino, o homem, o espaço, a guerra, o coma.

Os bailarinos – submetidos a um interessante processo de amadurecimento cênico –  emprestam seus corpos jovens, por vezes nervosos e apressados, a dar voz às cenas propostas, começando numa aparente harmonia, para saírem à luz e deparar-se com outras camadas de ilusão a serem rompidas, até evoluir para um estado de catástrofe – o caos. Como se a caverna de Platão se reproduzisse diante dos próprios olhos, recriando as mesmas ilusões em cenários diferentes. Nesse sentido, a iluminação realizada por André Stefson torna-se um componente primordial para dar corpo ao trabalho, mais um elemento da cena que se move luta, se espreguiça, morre.

No “girino”, a cena inicial é a do embrião como aquele que atende aos instintos primeiros, conectado ao mundo pelos centros de energia básicos, traduzidos em movimentos menos ritmados, uma aparente suavidade. A sequência vem no quadro chamado de “homem”, onde a luz desenha a cena tornando visível somente os pés dos bailarinos. Se estamos falando do ser humano no sentido amplo, do joelho para baixo tornamo-nos indistintos, não sabemos quem é quem.

Em todo o percurso a trilha sonora de Wanderson Lopes brilha pelo caráter escultórico, lapidado em conjunto com a concepção coreográfica. Isso quer dizer que o músico participou ativamente dos ensaios, para montar a trilha, estudando os movimentos que se apresentavam diante dos seus olhos.

No momento da “guerra”, o recurso audiovisual  se faz presente, com direção e edição de Iuri Galindo, para tornar menos palatável as cenas que gostaríamos de esquecer, ou não ver. Se nossa memória é um palimpsesto, onde os novos registros recobrem os anteriores, e assim sucessivamente, transformando o inconsciente num magma viscoso e iletrado, as imagens dos que são esquecidos pelas condições precárias de vida, os mortos sem nome de uma greve da Polícia Militar, a lama que tomou cidades e assoreou o Rio Doce, passam a integrar as memórias involuntárias de cada um dos espectadores, bem como a nossa própria memória coletiva – essa que preferimos abafar, mas cuja conta será paga em algum momento futuro.

Seria mais fácil esquecer algum fato da história, se ele não comparecesse para as gerações futuras. E, como diz Walter Benjamin, o tempo presente é o do choque, a catástrofe é permanente no mundo moderno, e os habitantes desse mundo são convocados a aparar esses choques constantes, para evitar o completo esfacelamento do Eu.

Benjamin diz que a vivência do choque está evidenciada no homem na multidão, na relação do operário diante da máquina, do pedestre no tráfego. A atual questão do tempo – a falta dele – as relações excessivamente mediadas pela tecnologia, a moral do espetáculo decorrente do excesso de informações, e a necessidade de contrastes para revelar o que está escondido.

No momento derradeiro – e isso não é um spoiler – máscaras de oxigênio não cairão automaticamente à sua frente. O coma como a representação do choque.

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