A chave de casa

Busquei o pôr do sol pela janela. Ele já havia descido e só o que restava eram cores degradês por trás das montanhas. Busquei estrelas para pedir, mas o céu não tinha noite.

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Dizem que hoje tem uma lua cheia forte daquelas que ativam os ânimos e os jogam
para todos os lados. Sento para escrever uma carta de despedida, que não é de
esquecimento. Quando me dou conta, estou na última página do caderno de
anotações que abri há sete anos.

Sinto um certo desolamento por assistir ao fim daquelas páginas escritas sem pressa. O
caderno que comprei no Japão, com as primeiras letras escritas na decolagem de um
voo. Lembro a hora exata em que escrevia, mesmo tremido, enquanto o avião ganhava
fôlego na cabeceira da pista. Com ele fui para a Itália três vezes, duas para repisar o
chão ancestral, a outra para avançar pela Bienal de Veneza, caindo nas graças das
coincidências do universo, como boa principiante, ultrapassando a maior barreira que
pode existir: aquela entre eu e eu mesma.

Levei-o para Roma para comer e andar, sendo um desses dias uma segunda-feira de
feriado, que me levei para jantar num vestido longo, lindo, feito por uma amiga do
peito. Uma festa para mim onde eu compareci. Lembro-me que bati palmas internas
da entrada à sobremesa. Tomava vinho e me arrepiava com a potência do momento.

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Com ele imergi em cachoeiras na Chapada dos Veadeiros, meu grande companheiro
que, junto do livro, nunca me deixaram na mão. Livro, caderno, caneta e vinho. Quem
tem um mundo interior suficiente e grande sabe do que estou dizendo.

No caderno azul escrevi todos os dias e fiquei ano sem escrever. Fiz roteiro para
ensinar os filhos a serem viajantes nesse mundão. É preciso deixar a vida cair em cima
de você, às vezes te nocautear até se dar conta de toda a carga de humanidade que
lhe pesa sobre os ombros. Para que todo esse peso seja combustível para devolver
vida à vida.

Nenhuma história vem sem um preço a pagar. Tentar sair ileso é um desperdício. É
preciso deixa-la vir com toda sua força. Ter história é melhor que não ter história
nenhuma. Ter o que fazer com uma história é uma das coisas que mais me entusiasma
a viver.

Eu desisto de tirar fotos. Existe algo da ordem do inapreensível. Em tempos de likes, é
preciso estar em paz com isso. Rebobino as páginas do caderno azul, que tem uma
capa bonita, e onde meu filho intervém com seu traço de artista. Passado, presente e
futuro embaralhados na pele. A chave está na mão.

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