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Feminista sueca diz que economia ignora mulher

Feminista e provocadora, a sueca Katrine Marçal defende novas bases teóricas da economia que incluam a mulher.

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Betty Feliz

Feminista,eu? Sim, acho que sempre fui, mesmo antes de descobrir o movimento. E nos anos 1970, auge do feminismo no Brasil, um livro circulava entre nós, mulheres, provocando frisson: A Dona de Casa.

Lembro-me que a autora era espanhola (esqueci seu nome, e o Google não ajudou na minha busca). Bem, o livro desapareceu da minha estante. Empolgada com a ideia de disseminar tão preciosas informações, devo tê-lo emprestado a alguém que nunca mais o devolveu.

Entre suas teses econômicas, a autora de A Dona de Casa defendia, com consistência,  o valor do trabalho doméstico. E provocava. Uma de suas suposições de que eu mais gostei no livro foi a da possibilidade de uma greve das donas de casa. O resultado? A quebra da economia.

Quem iria cozinhar, passar a roupa do marido para ele ir trabalhar, fechar a porta aberta da geladeira, comprar eletrodomésticos, apagar as luzes, lavar a roupa, enfim, manter a casa/empresa em funcionamento?, indagava a  autora.

Bem, se você achou tudo isso exagerado e radical, tem que ler O lado invisível da economia. Considerado o Freakonomics feminista, o livrolançado pela Editora Alaúde, questiona o modelo masculino do pensamento econômico.

A feminista, a economia e o mercado

No livro, a jornalista econômica sueca Katrine Marçal explica como as bases teóricas da economia ignoram a mulher, cujo papel era cuidar do lar. Séculos depois, essa mesma lógica continua excluindo a mulher. Em pleno século XXI, precisamos fazer jornada dupla ao gerir carreira e família, garante a escritora feminista.

Usando uma linguagem leve e envolvente, recheada de dados, a autora explica o funcionamento do mercado. Claro,ele é baseado na figura do homem econômico. Ela defende que a única solução para uma sociedade mais igualitária é um pensamento econômico mais feminista.

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 Para provar seu ponto de vista feminista, a jornalista parte de uma pergunta levantada por Adam Smith, pai da economia moderna: “Como você consegue o seu jantar”?  A resposta dele: é o interesse pessoal do açougueiro – sua vontade de lucrar – que faz a carne chegar à mesa. Para Katrine, ao dizer isso, Smith se esquece de uma peça-chave na trajetória de seu jantar: era sua mãe que fritava o bife.

Segundo a autora, o mercado é, na verdade, construído sobre uma economia invisível. Afinal, as mulheres não começaram a trabalhar apenas em meados do século passado, elas só mudaram de emprego.

“Se quisermos um retrato completo da economia, não podemos ignorar o que metade da população faz durante metade do tempo”, afirma Katrine. A autora ainda levanta dados como os da agência de estatísticas nacionais do Canadá. Ela descobriu que o valor do trabalho não remunerado no país variava de 30,6 a 41,4% do PIB (dependendo da forma de medição).

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O livro não explora apenas o problema da mão de obra feminina, mas as bases sobre as quais a economia como ciência foi fundada. E vai além: o que o feminismo pode fazer para transformá-la. Segundo a obra, se as mulheres tivessem tido a oportunidade de participar mais ativamente do desenvolvimento dos modelos econômicos, a figura do “homem econômico” poderia ser bem diferente.

Para a autora, isso explica por que a economia atual funciona muito mais para os ricos do que para os pobres. E, também, muito mais para os homens do que para as mulheres.

Provocativamente feminista, a obra explora desde o estabelecimento da economia como ciência até a mais recente crise financeira mundial. Ela defende a necessidade de uma nova abordagem para os problemas econômicos mundiais.

O lado invisível da economia já foi traduzido para mais de 15 idiomas. Foi um dos livros nomeados para o August Prize em 2012. Em 2013, ganhou o Lagercrantzen Award por seu “estilo provocador e pessoal, que desafia e seduz o leitor com a ousadia e segurança de seu domínio intelectual”.

Sobre a autora feminista

Katrine Marçal é jornalista e apresentadora de TV. Ela trabalha para o Dagens Nyheter, principal jornal da Suécia. Também apresenta um programa para o canal EFN, canal de TV sueco sobre finanças e política. O trabalho de Katrine foi descoberto por um editor sueco em um blog alimentado por ela,  enquanto ainda era estudante da Universidade de Michigan. Katrine começou a trabalhar para jornais suecos aos 22 anos. Aos 25, publicou seu primeiro livro, Rape and romance [Estupro e romance]. Ela já foi editora-chefe do jornal sueco Aftonbladet, no qual escrevia sobre política, economia e feminismo.

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