SEJA HYPE VOCÊ TAMBÉM

Geração XY: sonho de não-consumo

As novas gerações preferem usar a ter. Patrimônio está fora de moda. Mas até quando?

0 53

O interesse do consumidor ainda é o interesse da humanidade. Entender o mundo exige entender como a gente o consome. O maior desafio costuma vir dos mais jovens. Levou algum tempo até entendermos a gerações X e Y. Sabemos agora que elas não priorizam a posse. O que interessa é o uso. Resta saber se esse hábito é uma moda ou uma identidade. Em que apostar, na posse ou no uso?

No momento a vitória parece ser do uso. É o que sugere o mercado de automóveis. Em 2009, o Ford Fiesta oferecia aos jovens a chance de terem um carro simples, mas próprio. A ideia não gerou entusiasmo. Quem provou ser lucrativo foram serviços como o Urbano, o aplicativo para usar carros compartilhados. Mas isso não garante que a tendência jamais irá se reverter.

Alguns diriam que o momento é passageiro. Os mais jovens viveriam dessa forma por causa da crise econômica. Diante de incertezas, nada mais esperado do que um comportamento defensivo. Mas esperem só até eles conseguirem saldar as dívidas e ganhar dinheiro. Logo mais eles voltam a sonhar com casa e carro próprios, como seus pais e avós.

Mas existe também uma chance de que a situação seja mais complexa. Os jovens não esperam o fim dessa crise. Ela tem sido longa. E talvez jamais acabe. Não havendo saída, é preciso simplesmente fazer da crise um estilo de vida. E crise exige sobretudo poupar dinheiro, contrair as despesas e assumir que menos é sempre mais.

Sem dúvida a Grande Depressão de 2008 inaugurou essa tendência. O processo foi traumático. A crise dura há tempo demais. Ainda não há perspectiva de melhora. O mundo dificilmente voltará ao ritmo produtivo anterior. Tudo foi uma bolha, uma ilusão. É de se esperar que a situação forçasse um estilo de vida baseado em frugalidade e contenção de despesas.

A tendência escapou à influência da crise e virou um estilo de vida, servido pela tecnologia de comunicação. Surge a “economia do compartilhamento”, com o efeito curioso de remodelar sonhos de consumo. Pelo visto, patrimônio virou démodé. Precisa de um carro? Vá de Uber. Quer um lar? Alugue. Quarto para ficar? Airbnb. Bicicleta? Use aquelas compartilhadas.

Para aprofundar essa mudança, surge a tendência de “ecopolitizar” cada decisão de consumo. Lugar de militância agora é no supermercado. Votar não conta tanto quanto comprar. E o discurso agora é a sustentabilidade, uma nova forma de criticar o capitalismo. Quer salvar o mundo? Pense nas gerações futuras e consuma menos, ensinam eles.

Juntemos tudo isso – crise, compartilhamento, ecopolítica – e temos a Geração XY. Seria essa frugalidade uma “rebeldia de jovenzinhos”? Ou um autêntico modo de vida? A resposta talvez esteja na capacidade do mundo se recuperar da crise de 2018. Considerando o andar da situação, sinto muito, ela parece ser pouca.

A população mundial envelhece demais e nasce de menos. Nossa produtividade é declinante. A fartura de um novo boom econômico dificilmente virá. Se vier, não vai lembrar em nada aquele esplendor de épocas passadas. Neste caso, o comportamento da Geração XY logo mais será o da Geração Z e até mesmo o da Geração W. Cada qual com seu próprio sonho de não-consumo.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.