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Há muito tempo atrás, em um futuro distante

Por que a ficção especulativa do cinema desistiu de arriscar previsões?

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O novo episódio da franquia Star Wars, “Os últimos jedi”, estreia no cinema. Surge na tela o prólogo da história. Após tantos episódios, a primeira frase enfim rouba a atenção. Tudo bem que a história ocorra “em uma galáxia distante”. Mas por que “há muito tempo atrás”?

Star Wars não é ficção científica, mas revela uma tendência do estilo. Algo parecido ocorre em “Blade Runner 2049”. A data no título soa próxima demais. Poderia ser distante, como “3001”. No lugar, preferiu ocorrer daqui a meras três décadas depois do lançamento.

A paisagem cinematográfica do futuro é cada vez mais próxima. Não é difícil imaginar hoje em dia a armadura do “Homem de Ferro”, a biotecnologia de “Gattaca” ou a robô de “Ex machina”. Por que a ficção especulativa do cinema desistiu de arriscar previsões?

A futurologia já ousou ir mais ao infinito, e além. Escrito no século XIX, “Paris no século XX”, de Jules Verne, sedia sua narrativa um século depois de escrito. Críticos dizem que foi bem sucedido em prever tecnologias como o carro a combustão.

Tempos depois, George Orwell escreveu “1984”, talvez não se dando conta do quão genial – e assustador – era esse título. O livro foi escrito apenas 36 antes da data que nomeia a obra. A ameaça é clara. Muitos estariam vivos para testemunhar aquele horror.

Orwell era uma exceção: o futurismo continuou a mirar distante. Foi o caso de “2001: uma odisseia no espaço”, de Arthur Clarke. A obra foi escrita em 1968, quando faltavam 33 anos para a data do título. Mas o século 21 era aguardado como o início de uma nova era.

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E, de repente, chega o século 21. O futuro deixou de ser um lugar para especulação. Agora, é presente. Novas tecnologias e seu possível impacto deixaram de ter apelo cinematográfico. Nos filmes, debater o porvir passou a ser ponderar o agora.

A tendência não é exclusiva do cinema. “Battle Royale”, livro de Koushun Takami, é uma versão extrema de reality shows.  “13%”, série da Netflix, lembra certo país afunilado em concursos públicos. Quem precisa de futuro, com um presente desses?

Alguém deve se perguntar se há explicações técnicas para isso. Sim, há. A primeira é a que deixamos a Idade da Descoberta e passamos à Idade do Domínio. Mapeamos o genoma, o espaço, a inteligência. Estamos no futuro. O esforço não é produzir, mas dominar o saber.

A segunda explicação, menos nobre, é o tédio que o futuro agora causa. O futuro em títulos como “O exterminador do futuro” agora soa cafona. Desistimos de profecias mirabolantes. Já estamos grandinhos demais para acreditar em algo como “futuro”.

Finalmente, é possível que não haja o que explicar: a acusação seja injusta. Na ficção, o futuro sempre foi uma caricatura do presente. De qualquer forma, é verdade que o futuro costumava ser daqui a séculos – enquanto agora é daqui a vinte minutos. Mas o mecanismo é o mesmo.

Seja como for, é melhor se acostumar: a especulação cinematográfica abandona o futuro e recai sobre o presente. Não se pergunta mais como será o futuro quando ele chegar. A pergunta certa é outra: como será o futuro, agora que ele já chegou?

 

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