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MAURÍCIO LAMOSA: ”Não basta ser esteta”

Maurício Lamosa no Acervo Inspira

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Mauricio Lamosa comanda, ao lado do sócio Flávio Borsato, o famoso estudiobola. Formado em Arquitetura pela Universidade Mackenzie, com experiência em design gráfico e industrial, ele está sendo aguardado, com grande expectativa, em Cachoeiro de Itapemirim, nesta quinta-feira (07).

Convidado dos empresários Giovanni Fardin e Juliana Sabra, que comandam o elegante e espaçoso templo de design Acervo Contemporâneo na cidade, durante o evento Acervo Inspira, Maurício vai falar sobre seu processo criativo e a presença do estudiobola no mercado global. A plateia será formada por colegas de profissão, decoradores e clientes da loja.

Premiado pelo Museu da Casa Brasileira, neste bate-papo o arquiteto esclarece informações suas, “fora do contexto”, de entrevistas anteriores, diz que, para produzir beleza, é preciso muita técnica, e fala da crise, e de como o caos político, social e econômico brasileiro tem afetado a criação.

Maurício me contou muito mais. Não deixe de conferir.

O arquiteto Maurício Lamosa participa do evento Acervo Inspira,em Cachoeiro de Itapemirim

 Você já definiu a arquitetura como “a matemática da beleza”. Como explica esta analogia?

Na verdade, essa foi uma transcrição de uma palestra que fiz em Curitiba, e ficou completamente fora de contexto. Para mim, a beleza é, de certa forma, matemática. Com a experiência de anos de arquitetura e design, muitas viagens e trabalhos entregues, conseguimos mapear proporções, medidas e detalhes que cercam e produzem o ‘belo’. Ainda estudante de Arquitetura, visitando obras emblemáticas no país e no exterior, utilizava a trena para medir tudo o que envolvia aquela bela obra, da medida dos pilares ao pé-direito, a quantidade de luz que entrava no projeto, temperatura ambiente, texturas do piso e parede etc. Esse exercício ininterrupto, que também faço com belos trabalhos de design gráfico e industrial, forma um ferramental de soluções em busca das proporções e sensações ideais. Não basta ser um esteta. Para produzir o ‘belo’ é preciso muita técnica.

Uma relação afinada

Como você definiria sua parceria com seu sócio, Flávio Borsato? Quem é mais ou menos intenso na relação?

Somos complementares, desde a época de faculdade. Somos amigos e nos conhecemos na faculdade de Arquitetura, onde sempre desenvolvemos trabalhos juntos, e nos divertimos também. Hoje, essa amizade é mais responsável e profissional. Tudo o que um produz passa para o outro aprovar. Dessa forma, evitamos tomar rumos desnecessários, porque dois olhares ajudam na tomada de decisões. Mas estas são sempre muito rápidas e pragmáticas, evitando assuntos represados. Flávio tem um histórico familiar de mobiliário e empresarial. A família possuía uma fábrica de móveis em São Bernardo do Campo, em São Paulo. Tem linguagem e presença empresariais, conhece mais do que eu os meandros financeiros, tributários e comerciais importantes em qualquer carreira. Com o tempo de profissão, acabei adquirindo esses atributos também. Hoje, sou mais empresário do que designer, mas tenho um perfil mais sensível no olhar, e transito facilmente em outras áreas, como o design gráfico e comunicação.

“Com crise atrás de crise, acabamos vendo a necessidade de iniciar caminhos no exterior que nos blindem desse caos.”

O país vive uma crise sem precedentes em sua história. Como é trabalhar com criação em meio ao caos político, econômico e social? Até que ponto isso afeta seu processo criativo?

Afeta totalmente a criação. Devo lembrar que, antes da criação, temos um planejamento estratégico, que nos coloca o briefing de o que e onde criar. Com crise atrás de crise, acabamos vendo a necessidade de iniciar caminhos no exterior que nos blindem desse caos. Nossos investimentos, de três anos para cá, têm sido voltados   para a criação de um canal comercial no exterior. O nosso país perde com isso, pois poderíamos alocá-los somente aqui. Mas essa presença no mercado global é necessária e salutar para qualquer empresa. A crise também abre oportunidades de negócio que geram desenhos e trabalhos. Nunca deixamos de criar por causa disso.

Banco Andy, assinado pelo estudiobola,de Maurício Lamosa e Flávio Borsato

Mantendo a qualidade do produto

O estudiobola é uma referência em inovação na área de design industrial. Como é manter esta chama permanentemente acesa, sem perder de vista a qualidade do produto?

É muito difícil, e estamos do meio de um processo de qualidade agora com nossos fornecedores parceiros. Muitos assuntos dependem de esforços de terceiros, para que a engrenagem se não trave. É o caso das transportadoras, por exemplo. Com a crise e a diminuição no valor do frete, o serviço prestado diminuiu bastante em qualidade, aumentando o número de assistências técnicas nos produtos. Estamos, no momento, desenhando e projetando embalagens que se adaptem a essa nova realidade. Com as demissões nas fábricas, algumas áreas importantes para a qualidade, como a   expedição de produtos, também foi afetada. Com isso, o controle de qualidade diminui também. Enfim, além do desenho, nos preocupamos com uma enormidade de processos industriais, comerciais e financeiros necessários quando a marca cresce, e precisa manter seus parceiros e clientes satisfeitos, mesmo quando problemas acontecem.

O que, em geral, os arquitetos/ designers com os quais se encontra em eventos como o Acervo Inspira mais querem saber?

Geralmente, todos têm a curiosidade do caminho que leva um produto da ideia até a exposição em uma loja qualificada, como a Acervo. Querem saber qual o cotidiano de criação de uma pessoa responsável por linhas assinadas. Pensar, conceituar, desenhar, produzir, expor e, finalmente, vender uma peça de design é um caminho tortuoso, e os profissionais sabem ser difícil. As perguntas, geralmente, cercam esses momentos do produto.

O buffet Costa, assinado por Flávio Borsato e Maurício Lamosa para o estudiobola 

“Quero ver mais pessoas usufruindo do meu trabalho”

Você diz que só com o plástico será possível democratizar o design industrial. 

Não foi isso que disse na ocasião. Coloquei que me sinto mais realizado como designer industrial com a democratização das minhas criações. Para mim, é mais fácil projetar uma joalheria em forma de mobiliário, mas isso atinge poucas pessoas. O Olimpo da profissão, no meu entender, é quando investem em um ferramental caríssimo para distribuir suas criações, como é o caso do plástico. Quero ver mais pessoas usufruindo do meu trabalho, e a fabricação plástica proporciona isso, pois barateia o produto final.

Como o estudiobola trabalha a questão da sustentabilidade?

Com relação à sustentabilidade, estamos muito vinculados a processos fabris de fabricação seriada, industrial. Portanto, a matéria-prima que utilizamos deve ser pesquisada à exaustão, em sua origem e documentação. Também projetamos peças perenes, que são passadas de geração em geração. Plástico, alumínio, madeira e tecidos são perfeitamente recicláveis. Acho que essa engrenagem de reuso é de responsabilidade de outros segmentos da sociedade. Da nossa parte, nos preocupamos muito com a matéria-prima utilizada e o uso que as fábricas parceiras fazem de seus descartes, como serragem, por exemplo.

Bancos Diamante, que também levam a assinatura da dupla de arquitetos Borsato e Lamosa  

Ideias criativas bastam para enfrentar o “fast fashion” do mobiliário?

Sim, o importante é sempre continuar gerando conteúdo para que seu trabalho seja aspiracional. Respeitado e desejado. Quanto às cópias, infelizmente mantemos advogados que nos auxiliam nas notificações em processos de patentes e propriedade intelectual. Gastamos com advogados e patentes em nossas criações para proteger uma rede comercial que foi muito difícil de ser construída.

Conselhos para empreendedores

Que conselhos daria a um jovem arquiteto com aspirações a empreendedor?

1-Nenhum negócio dá certo em menos de cinco cinco anos; 2) Coloque um limite em seus objetivos. Se não performarem após esse limite, repense tudo. É muito comum ficarmos presos no dia-a-dia de tarefas e esquecermos os objetivos estratégicos traçados anteriormente; 3) Prepare- se para o seu negócio travar duas ou três vezes no caminho, por falta de capital de giro. Tenha em mente qual a saída que você terá para essas situações. Empreender é glamour zero e o custo fixo baixo é a base de tudo para aumentar suas margens de lucro; 5) Expectativa não serve para nada; 6) Empreender   requer decisões frias, pragmáticas, impessoais, rápidas e baseadas em números, prazos e resultados; 7) Estar preparado para envelhecer mais rápido que um empregado convencional, mas, pelo menos, seu lugar no céu está garantido, e você não precisa aguardar convites de trabalho para viver.

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