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Meu amigo robô: lições de uma paixão japonesa

O robô é o melhor amigo do japonês. E o nosso pior pesadelo. Precisamos fazer as pazes.

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Depois de quase duas décadas, Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, merece ser revisto. Seu tema enfim se tornou atual. Importa revisitar as desventuras de um menino artificial em uma sociedade contraditória, que supera suas limitações usando robôs inteligentes – e que mesmo assim se tornou robofóbica.

Essa sociedade, quem diria, se tornou a nossa. A solução desse menino seria emigrar para o Japão, país onde a tecnologia é bem vinda e os robôs são percebidos como amigos.

A Ásia tem sido a nova aposta da liderança mundial. Surgem para isso diversas explicações. Nenhuma delas será completa se ignorar a possível tecnofilia oriental. É o que se verifica no Japão, país que adota sem reservas o avanço tecnológico, especialmente o robótico.

Enquanto isso, a tecnofobia é imperativa no ocidente. Basta conferir a ficção científica. Um dos temas hollywoodianos favoritos são as consequências – nefastas, naturalmente – de criações como a Internet ou a engenharia genética. Uma confissão de nosso medo de novidades.

De todas essas novidades, as mais temida ainda são os robôs. O confronto é inevitável. Ele pode ser brutal, como em Exterminador do Futuro. Pode ser filosófico, como em Ex Machina. Ou uma combinação de ambos, como na série Westworld. A referência é o Complexo de Édipo. A criatura sempre se insurge contra o criador.

O contraste é gritante com a robofilia japonesa. Lá, robôs assumem a narrativa como amigos e heróis. Em Astroboy, por exemplo, um menino robô protege o mundo contra agressores. Neon Genesis Evangelion vai além: pessoas e robôs se integram em simbiose para defender a Terra.

Robôs são tão populares no Japão, que até mesmo inspiraram danças, roupas, modas. Muitos são usados para educar filhos, ninar bebês, tratar pacientes, socializar pessoas. Robôs cumprem papel de protetores, auxiliares, amigos. Sua existência inspira vida e esperança.

Enquanto isso, os avanços em inteligência artificial atiçam nossa robofobia. Ficou famoso o alerta que personalidades como Stephen Hawk, Bill Gates e Henry Kissinger lançaram contra a novidade. Sophia, a simpática mulher artificial, pelo visto é o novo anticristo. É claro que essa atitude nos condena a um perigoso atraso.

Por que o ocidente teme os robôs? E por que o oriente nipônico os ama? O contraste das respostas é necessário. Em breve, nossa robofobia será uma explicação para um provável vanguardismo do Japão e de outros países orientais que aprendam a gostar deles.

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A robofobia ocidental costuma ser explicada em termos econômicos. A industrialização do trabalho humano foi um processo traumático. A narrativa mais clássica afirma que máquinas substituíam os homens, ceifando sua aplicação prática. Jamais superamos esse trauma.

Outra explicação possível está na religiosidade ocidental. Segundo princípios judaico-cristãos, somente Deus pode dar vida. Isso talvez explique o horror causado pelo Frankenstein de Mary Shelley. Criar vida inteligente, mesmo que robótica, desafia um tabu religioso.

Enquanto isso, a robofilia japonesa avança. Qual seria a sua origem? A explicação econômica dela provavelmente é a queda na taxa de natalidade. Como país rico, o Japão nasce pouco e envelhece muito. Robôs são bem vindos como mão de obra e até mesmo como companhia.

Existe também uma explicação religiosa. Autores como Heather Knight e Naho Kitano apostam que a origem da  robofilia nipônica é o xintoísmo. Base religiosa japonesa, ele é basicamente animista. Nele não há distinção entre objetos e seres. Tudo possui alma: pedras, montanhas – e robôs.

Por fim, é possível que a experiência sejam diferentes. Máquinas no ocidente sempre foram utilizadas em guerras, desde catapultas até drones. Enquanto isso, robôs floresceram no Japão como instrumentos de paz e de desenvolvimento. Japoneses são amigos dos robôs, e robôs são amigos dos japoneses.

Aceitando robôs, o Japão ganha uma vantagem. Máquinas inteligentes são cada vez mais capazes de realizar trabalho repetitivo e pesado, mesmo que complexo. Os japoneses ficarão livres para se dedicar ao que realmente constrói riqueza hoje em dia: trabalho imaginativo.

Enquanto isso, os ocidentais terão de continuar a realizar colheitas, levar peso, quebrar pedras, martelar pregos. Farão o trabalho que no Japão será de robôs. Surge dessa forma o mais irônico disso tudo. Por lá, robôs se humanizam. Por aqui, humanos se robotizam.

Talvez seja o momento de fazermos as pazes. Puxar o robô da tomada é uma péssima decisão. Fazendo isso, estamos puxando da tomada a nós mesmos.

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