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MIRIAN GOLDENBERG

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São quase três décadas de pesquisa e mais de 30 obras publicadas. Conversei com a antropóloga Mirian Goldenberg, que acaba de lançar Por que os homens preferem as mulheres mais velhas? Ela responde à pergunta de seu livro, e ainda fala sobre sexo, dominação e preconceito.

O título do livro é pura provocação, diz Mirian, admitindo uma realidade inquestionável: o número de homens que se relacionam com mulheres mais jovens é muito maior. Mas, então, quantos e quem são estes homens e estas mulheres que serviram de base para o novo livro?

Depois de entrevistar 52 casais, Mirian, que há anos pesquisa sobre os diversos tipos de arranjos conjugais no Brasil, e está debruçada sobre a questão do envelhecimento, concluiu: a união de mulheres mais velhas com homens mais novos minimiza os jogos de dominação, conflitos e disputas muito comuns nos casamentos ´”convencionais”.

 Por que os homens preferem as mulheres mais velhas?, lançado pela Editora Record, trata justamente de uma questão que envolve a interseção dos dois assuntos: o fato de alguns homens preferirem se casar com mulheres mais velhas.

“Por mais estranho que possa parecer, apesar de este tipo de relação ser considerada desigual, encontrei uma situação bastante equilibrada para os homens e mulheres pesquisados. Aparentemente, elas são percebidas como dando muito mais do que eles, em termos de posição social, situação financeira, maturidade, experiência, cuidado, carinho, atenção, compreensão. No entanto, eles dão aquilo que muitas mulheres desejam: o reconhecimento de que elas são superiores. Elas recebem a prova constante de superioridade em relação às outras mulheres, especialmente as mais jovens”, afirma Mirian.

Confira o nosso bate-papo.

Você é considerada uma expert em comportamento, em questões que envolvem homens e mulheres. O que a fez interessar-se por esta área?

Desde muito cedo, antes dos 16 anos, já comecei a me interessar por estas questões. O fato de ser a única menina e ter três irmãos, de ver a diferença de tratamento e de liberdade, de testemunhar a vida infeliz da minha mãe me abriu o mundo do feminismo. Antes dos 18, li O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, um marco na minha vida. Desde então, não parei mais. Fui militante estudantil, participei de diversos movimentos libertários até me tornar antropóloga e pesquisadora. No meu doutorado, que iniciei em 1988, tive a sorte de estudar a trajetória de Leila Diniz. Com a mistura de Simone de Beauvoir e Leila Diniz, descobri que dá para rimar liberdade com felicidade. Em todos os meus textos busco falar destas duas questões existenciais, a partir das minhas pesquisas.

O que a levou a escrever  Por que os homens preferem as mulheres mais velhas?

 Desde 2007 tenho pesquisado 1700 homens e mulheres na pesquisa ´Corpo, Envelhecimento e Felicidade´. Percebi que as mulheres de mais de 60 valorizam a maturidade, a liberdade e a independência que conquistaram ao longo do tempo. Muitas me falaram de relações amorosas com homens muito mais jovens. Fiz uma pesquisa em profundidade com 52 casais, em que as mulheres são mais velhas do que os maridos, e descobri que são casais mais felizes, equilibrados e igualitários do que os casais que havia pesquisado anteriormente, cujos homens eram mais velhos. Aprofundei a pesquisa para compreender os segredos dessa felicidade e entender porque as mulheres têm tantos medos, inseguranças e preconceitos relacionados ao tabu da idade.

 Por que é mais fácil entender a escolha de homens mais velhos por mulheres mais novas, e há tanto preconceito quando uma mulher mais velha se une a um jovem?

A lógica da dominação masculina explica as duas questões. Nessa lógica, o homem deve sempre ser superior à mulher: mais velho, mais alto, mais rico, mais poderoso, mais bem-sucedido. Quando o casal inverte essa lógica, os preconceitos surgem. É ameaçador fugir da lógica hegemônica.

No seu livro, você diz que a relação entre mulheres mais velhas com homens mais novos reforça nelas a sensação de superioridade. Isso contraria a crença, geral, de que elas estariam sempre inseguras, diante da concorrência das mais jovens…

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Elas ficam, sim, muito inseguras, principalmente em uma cultura em que o corpo jovem é um verdadeiro capital. No entanto, com o passar do tempo, se sentem valorizadas por terem outros capitais muito mais importantes para uma relação: compreensão, maturidade, carinho, independência etc. Elas recebem provas constantes deles de que são superiores às demais mulheres, especialmente as mais jovens.

Como homens e mulheres encaram o envelhecimento? Quem aceita melhor o chamado “peso da idade”?

A mulher sofre muito mais com questões relacionadas à aparência, o homem tem mais medo da inutilidade e da dependência. Os dois sofrem, só que as mulheres falam mais abertamente sobre seus medos.

O Brasil é um país que cultua a juventude, o corpo perfeito, especialmente no que diz respeito às mulheres. É como se fosse proibido envelhecer. Como essa cultura de eterna juventude afeta as pessoas?

O pânico de envelhecer é uma realidade, especialmente entre as mulheres. Elas têm muito medo de perder o corpo-capital. No entanto, quando envelhecem, passam a valorizar a liberdade que conquistaram. Muitas dizem categoricamente: `É o melhor momento de toda a minha vida, é a primeira vez na vida que posso ser eu mesma, nunca fui tão livre, nunca fui tão feliz!´.

Como pesquisadora, educadora e escritora, o que você acha que falta ensinar a meninas e meninos para que, no futuro, se tornem adultos mais bem resolvidos sexualmente?

Em primeiro lugar, que o corpo não é o principal capital para uma vida feliz. Que a educação é o bem mais valioso para conquistar independência, liberdade e felicidade. E que homens e mulheres têm os mesmos direitos, deveres e responsabilidades, dentro e fora de casa.

Você é autora de mais de 30 livros, que, somados, representam a venda de 100 mil exemplares. Como se sente ostentando esta invejável posição no mercado editorial brasileiro?

 Eu me sinto muito feliz com o reconhecimento de todo o meu trabalho. Desde muito cedo, pesquiso e escrevo sobre temas como casamento, fidelidade, corpo, envelhecimento. Meu trabalho tem sido o ponto central de toda a minha vida. Quero que meus estudos tenham algum impacto na vida de homens e de mulheres, que ajudem na conquista de uma vida mais livre e mais feliz. Minha maior alegria é saber que consigo mostrar que muitos sofrimentos não são resultados de fracassos individuais, mas de uma cultura que aprisiona homens e mulheres em determinados modelos de comportamento. É um desafio permanente pensar essas questões a partir das minhas pesquisas.

 A que você atribui todo esse sucesso?

 Ao meu trabalho permanente, à paixão por pesquisar e escrever e ao interesse muito amplo pelos temas que pesquiso. Consegui combinar a seriedade da pesquisa científica com uma escrita agradável, leve e divertida. Quero que meus leitores leiam o que escrevo e, por isso, reescrevo incontáveis vezes até o resultado final.

Já está pensando no próximo livro?

Já, sempre. Mas, no momento, ainda estou concentrada em divulgar “Por que os homens preferem as mulheres mais velhas?”, que acabei de lançar. O livro reúne minhas pesquisas sobre casamento, amor, felicidade, liberdade, corpo e envelhecimento. É uma boa síntese de todas as minhas pesquisas e, de certa forma, uma continuidade de “A bela velhice”, que já está na sétima edição.

Mais sobre a autora

Mirian Goldenberg nasceu em Santos (São Paulo) e mora no Rio de Janeiro desde 1978. É doutora em Antropologia Social e professora titular do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de mais de 30 livros, que, juntos, já venderam mais de 100 mil exemplares. Entre eles estão: Toda mulher é meio Leila DinizA Outra, De perto ninguém é normalA arte de pesquisarInfielIntimidadePor que homens e mulheres traem?Coroas, A bela velhice e Velho é lindo! É colunista, desde 2010, da Folha de S. Paulo.

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