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Mundo interior

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Me arrepio. Sento sozinha num restaurante, como há cinco anos atrás. Nessa época eu já havia inventado isso em mim. Isso que sempre me habitou, essa capacidade de ficar só. Eu a caneta, os livros, o caderno de anotações e o vinho. Me arrepio.

Olho para os lados como se as outras pessoas no local percebessem o que é evidente. Como se elas vissem microscopicamente meus pêlos eriçados, tamanho é o tamanho do mundo interior. Olho para os lados, como se pedisse uma confirmação. Afirmação não há. Era aquilo. Eu a olhar para a parede de pedra até o teto, a luminárias simetricamente posicionadas, ouvindo uma conversa distante da mesa ao lado onde só o outro se exibe para duas moças.

Mergulho ainda mais. Reconheço ainda mais.

Para dizer: quais as chances de se pegar o mesmo motorista de uber num intervalo de tempo um pouco maior que quatro meses, em pleno Rio de Janeiro. A estatística diz que são 55.000 ubers rodando na cidade. Quando chamei a corrida na saída da aula no Parque Lage em direção à São Conrado, ele diz que pensa que “a última vez que vim aqui foi para levar aquela menina”. Menina é por minha conta, porque menina mesmo já não sou mais.

Bruno é um bom rapaz, pega onda, negro, namora Jéssica. Do signo de peixes, um apaixonado. Após cumprir meu compromisso, peço que ele passe pela Niemeyer, porque tenho boas recordações, que quero lembrar e também quero esquecer. Preciso repisar esse chão.

Ele evolui na conversa e conta de uma passageira, que ele diz ser advogada, que fazia um curso no Rio. E que há uns anos atrás já fez esse mesmo percurso aos sábados. Em meio a contemplações e arrebatamentos da paisagem da cidade que me espanta, pensei que aquela poderia ser eu. Até que chega o momento em que ele confirma. Aquela que ele narra de fato sou eu. Acredito.

Evoluímos de São Conrado ao Centro pensando nas raras probabilidades de se pegar o mesmo motorista de uber, sem morar no Rio de Janeiro. Aquilo nunca havia acontecido.

Desço no centro para almoçar no restaurante que já foi rota constante em 2012. Deixo algumas mensagens finais antes de sair do carro – é preciso se deixar pelos lugares que se passa – afinal, Bruno lembrou que eu era eu!

Digo – de novo –que o maior abismo que existe é aquele buraco aberto entre nós e nós mesmos. É preciso se ultrapassar. Que ele siga em frente, apesar das circunstâncias. Que vá a Fernando de Noronha como tanto quer, mas que comece a economizar agora, porque é mais caro que sair do país. Mas vale cada centavo.

Que chame Jéssica na responsabilidade. Ela quer ser sua namorada, mas não vai admitir. Tire o véu do desejo dela, diga que ela é sua mulher, não como posse, mas como amor, pois a vida é muito curta para ser vivida com medo.

Muito do que acontece não tem e nunca terá explicação.

É preciso dar conta desse mistério.

Cumprimento Bruno e desço do carro.

Provavelmente nunca mais nos veremos.

Essa é a graça de estar vivo.

 

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