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Lúcia Vilarinho

Crea-ES quebrou um tabu

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O Crea-ES- Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado do Espírito Santo , 57 anos depois, elegeu uma mulher para comandar a entidade. Durante os próximos três anos, a engenheira civil Lúcia Vilarinho estará à frente do Conselho da instituição, que reúne cerca de 32 mil profissionais.

Vilarinho defende a modernização do Crea-ES. Segundo ela, a entidade precisa aproximar-se dos profissionais, posicionar-se sobre temas importantes. Mais do que isso, e principalmente, desempenhar, com mais eficiência, sua principal função, que é a de fiscalizar o exercício da profissão.

“Hoje, estamos bem longe desta realidade”, afirma a nova presidente do Crea-ES, do alto de sua autoridade. Afinal, são 40 anos de experiência profissional, divididos entre o setor privado e a gestão de projetos públicos em diferentes governos.

“Eleger uma mulher presidente do Crea-ES pela primeira vez, em quase 60 anos de existência, é um grande passo, não apenas para o Conselho, mas também para a Engenharia do Espírito Santo”, diz Villarinho. Neste bate-papo, ela também revela seus planos e admite que enfrentou muitos preconceitos ao longo da bem-sucedida carreira.

 A nova presidente do Crea-ES quer modernizar a entidade

Demorou mais de meio século para que uma mulher ocupasse a presidência do Crea-ES. Por que tanto tempo assim?

Vivemos hoje grandes avanços na luta feminina por espaços, mas ainda temos muito para caminhar. Apesar de representar mais da metade da força de trabalho em grande parte do mundo, ainda são pouquíssimas as mulheres que ocupam cargos de liderança. Falo tanto da esfera pública quanto da iniciativa privada. O Crea acompanhou os ciclos econômicos, o ambiente político e as mudanças sociais pelos quais passaram os capixabas. Mas, infelizmente, repetiu o conservadorismo e as desigualdades do nosso desenvolvimento. Nós, mulheres, trabalhamos muito, mas ainda somos mal remuneradas. Somos sobrecarregadas e, em muitos casos, desestimuladas a crescer na profissão e no ambiente público. Por tudo isso, eleger uma mulher presidente do Crea-ES pela primeira vez, em quase 60 anos de existência, é um grande passo. Não apenas para o Conselho, mas também para a Engenharia do Espírito Santo.

“Ainda atuamos em um reduto masculino”

Houve um tempo em que áreas como a de Engenharia eram redutos eminentemente masculinos. Nestes 40 anos em que você exerce a profissão, que mudanças observou?

Hoje temos cerca de 32 mil profissionais atuando na área tecnológica do Estado, entre engenheiros e técnicos. Destes, apenas quatro mil são mulheres. Ou seja: ainda atuamos em um reduto majoritariamente masculino. Quantas mulheres chefiam equipes em grandes empresas da área tecnológica? Quantas ganham os mesmos salários que os colegas homens em cargos semelhantes? Quantas obtêm a mesma projeção que os homens por realizações parecidas? Cada vez mais mulheres conquistam espaço, projeção e respeito. Mas, se olharmos questões como essas, que são pertinentes à Engenharia e também a quase todas as outras profissões, vamos perceber que ainda falta muito para conquistar.

Você enfrentou preconceitos ao longo de sua carreira?

Muitos, mas, graças a Deus e a muito trabalho, consegui desconstruir todos eles. Nasci numa família numerosa, em Castelo. A Engenharia era meu sonho, desde os 13 anos de idade. Mas era um sonho distante. Imagine: uma menina humilde nascida no interior do Estado querer ser engenheira! Batalhei muito e consegui. Provei que nada é impossível. A profissão me permitiu muitas coisas, entre elas ser a primeira engenheira mulher na construção da Companhia Siderúrgica de Tubarão, hoje ArcelorMittal. Ser, também, a primeira diretora do DER, o Departamento Estadual de Estradas e Rodagens do nosso Estado, e, agora, a primeira mulher a presidir o Crea no Espírito Santo.

Foco no diálogo e na eficiência

 Como é chefiar homens?

Nós mulheres estamos acostumadas a acumular funções, realizar tarefas múltiplas. A aliar a técnica e a sensibilidade na hora de tomar decisões. É bom poder levar isso ao dia a dia de trabalho, aliando o foco no diálogo e na eficiência com as características típicas de uma mulher trabalhadora.

Você se dividiu entre o setor privado e a gestão de projetos públicos, em diferentes governos. Qual foi seu maior desafio, em uma e outra área?

Sempre tive um olhar voltado para o bem-estar das comunidades. Tanto no setor privado quanto na gestão pública, trabalhei para aliar as necessidades das empresas e dos governos a uma gestão voltada para as pessoas. No setor privado, o desafio principal é conseguir aliar essas necessidades à realidade financeira e ao mercado. No setor público, a questão principal, na minha opinião, é ter eficiência, responsabilidade e transparência no uso dos recursos públicos.

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Os desafios de Vitória
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Qual é o futuro das cidades?

 Acredito que o futuro está em cidades inteligentes e sustentáveis. Projetos que prezam pelo aproveitamento da luz natural, gestão eficiente da água, coleta seletiva de lixo e economia de ar condicionado, por exemplo, são cada vez mais necessários. As cidades não são ilhas isoladas. Seus ciclos de crescimento e decadência estão profundamente ligados à região onde estão inseridas . Está ligados à interação regional com o país e com o mundo.

E o futuro de Vitória, em particular?

Vitória é uma ilha. Uma ilha que se transformou num centro geográfico de uma região metropolitana de quase dois milhões de habitantes, englobando sete municípios. Eles representam, aproximadamente, a metade da população capixaba. Apesar de ser considerada uma das capitais de melhor qualidade de vida do Brasil, existem inúmeros desafios a serem superados. Entre eles, estão mobilidade urbana, saneamento ambiental, empregos e renda, pavimentação de vias e macrodrenagem. Além disso, ainda estão oportunidades de negócios, educação, segurança, déficit e qualidade da moradia popular, segurança hídrica, segurança alimentar e energia limpa, entre outros.

Paz, solidariedade e cooperação

Quais são as bases destes novos tempos?

Vivenciamos uma revolução tecnológica que permitirá adquirirmos hábitos e comportamentos mais sustentáveis e inteligentes. Tudo isso, ancorado na eficiência energética, na democratização da informação e do conhecimento. Sem falar na higiene do meio ambiente, na proteção de nossa flora e fauna e de nossos recursos hídricos, e na promoção da saúde física e mental. E tem mais: divulgação da cultura da paz, da solidariedade e da cooperação. A nova sede do Crea-ES é emblemática desses novos tempos. Oferece ventilação e iluminação naturais, baixo consumo de energia e de água, captação de águas pluviais e sistemas automatizados. Tudo isso permitiu a exclusiva Certificação Gold Leed.

“Quero que o Crea-ES se posicione”

A sensação que temos é de que, a cada dia as cidades são tomadas de assalto por um número cada vez mais de veículos. Como conter essa ameaça?

Precisamos utilizar o carro racionalmente, buscar horários alternativos para as nossas locomoções e incentivar o transporte coletivo. A mobilidade urbana é, sem dúvida, um dos maiores desafios de nosso tempo.

Qual é a marca que você pretende imprimir no Crea-ES?

O Crea é o maior conselho profissional do Estado. É também o que abrange a maior variedade de carreiras e congrega, aproximadamente, 70% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. Sua atuação precisa ser condizente com seu tamanho e importância. Já comecei a trabalhar para isso, dialogando com o setor produtivo, as entidades de classe, os governos, as instituições de ensino e os profissionais da área tecnológica. Quero que o Crea-ES se envolva e se posicione em temas importantes para a sociedade capixaba, como a segurança nas edificações públicas e privadas, a qualificação e a qualidade dos profissionais da área tecnológica e o desenvolvimento com sustentabilidade. A modernização dos processos internos e a transparência também são metas importantes.

“Temos grande potencial para comandar equipes e projetos”

Que conselhos daria às mulheres que pretendem galgar postos de comando, tanto no setor privado quanto no setor público?

Trabalho, foco e dedicação. Ao aliar boas práticas de trabalho com a inteligência, a sensibilidade e a multidisciplinaridade típicas das mulheres, temos um grande diferencial para comandar equipes e projetos. Existe uma frase da professora Youngme Moon, de que gosto muito: “Liderar é melhorar os outros em função de sua própria presença e garantir que o impacto perdure em sua ausência”.

O escritor Irvine Welsh diz não acredita que a masculinidade esteja em crise. Para ele, trata-se apenas de uma evolução ligada à divisão no trabalho, que já não favorece o predomínio dos homens. Onde você acha que esta onda de feminismo irá levar as mulheres?

Ainda vejo o predomínio dos homens, o machismo e o autoritarismo de maneira muito acentuada no mundo do trabalho. Espero, sinceramente, que um dia sejamos iguais aos homens tanto na divisão de tarefas quanto na valorização. No que depender de mim, vou trabalhar todos os dias para levar a força feminina cada vez mais longe!

Mais sobre Lúcia Vilarinho

Ela é graduada em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pós-graduada  (Univila) e especialista em Análise de Sistemas pela Faesa. Lúcia Vilarinho também foi foi secretária municipal de Habitação de Vitória, subsecretária de Saneamento e Programa Urbanos do Estado e subsecretária de Gestão Urbana de Vitória. Além disso, foi diretora de Projetos e Obras de Edificações no Instituto de Obras Públicas do Governo do Estado, e diretora geral do Departamento de Edificações Rodovias e Transportes.

Vilarinho também ocupou o cargo de  presidente do Conselho Municipal de Habitação da Capital e foi membro do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano. No setor privado, atuou como engenheira civil nas áreas de projetos, Engenharia de Investimentos, medições dos contratos de obras civis e montagem eletromecânicas, planejamento e execução de projetos de engenharia em empresas como a Companhia Siderúrgica de Tubarão, atual ArcelorMittal Tubarão, e a Planenge Planejamento e Execução em Engenharia.

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