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O que há de falso em fake news

Em política, a verdade na notícia agora é subjetiva: se não nos agrada, então é falso. Como vamos nos livrar dessa armadilha?

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A gente abre a revista e o amigo ao lado logo nos avisa: não leia isso, é fake news!, é mentira! Não, ele não quis dizer que não gosta da revista. Ele quis dizer: é fake news!, é mentira! Um feito admirável. Como pode detectar mentira em notícias que nem sequer leu?

O amigo na verdade está avaliando o viés político da revista. Sua atitude é esperada. Julgar esse viés faz parte de avaliar uma notícia. Toda publicação assume um lado, o jogo político também está ali. Mas mentira? A suspeita vai longe demais. Além disso, é imediata demais. Mais uma vez, como isso aconteceu?

O trabalho da imprensa cedo ou tarde incomoda a política. Esse incômodo costuma inspirar algum termo para desqualificar esse trabalho. No Brasil, vigorou por algum tempo o “denuncismo”, um suposto abuso no dever de denunciar. Pois a moda agora são fake news.

Em sua origem, fake news é um conceito técnico. Significa “notícias falsas” em inglês. E quando uma notícia é tecnicamente falsa? Quando não é possível comprovar as informações divulgadas. A fake news não surge de um equívoco. Ela é falsificada de maneira intencional. O estrago não é um acidente, é o objetivo.

Sim, o problema é verdadeiro, especialmente em política. Nesse contexto, difamação e panfletagem são frequentes. A situação piorou com a Internet. Ela ampliou o alcance das fake news, forçando uma radicalização política. Desde então, avaliar notícias se tornou simples para muitas pessoas. Se o veículo oferende meu viés, então está mentindo.

Essa reação radical tem sua lógica. Os critérios da objetividade são violados com frequência na Internet. A imprensa também tem parte na culpa. Muitas notícias políticas têm sido enviesadas em demasia, gerando prováveis distorções. Diante desse risco, nada mais lógico do que se agarrar ao filtro mais estável possível. Esse filtro ainda é a convicção política. Mas a que preço?

Esse preço pode ser caro. O conceito deixou o campo técnico e se perdeu no político, tornando-se vazio. Fake news se tornou toda notícia que você tripudia porque ofende sua convicção ou imagem política. O único critério de avaliação é a crença. Se ela for ofendida, então é fake. Estão tentando manipular o debate. É fake news!

Esse uso abusivo do termo fica evidente em declarações de políticos e de grupos. Quando ofendido, Trump não hesita em dizer à imprensa que “vocês mentem!”. Reprovando o viés da Globo News, a Escola Sem Partido apelidou a rede de “Fake News”. Discordando da série “O mecanismo”, Dilma Rousseff logo a acusou de divulgar “fake news”. Seus seguidores com certeza também fazem dessa forma.

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Dessa maneira, a caça a fake news pode atropelar os critérios objetivos de qualidade da notícia. Menos importa se a informação possa ser comprovada. Menos importa se o jornal teria muito a perder por mentir. Se você está ofendido com o viés, isso é o bastante. Se não agrada, não é verdade. Acima de tudo, a subjetividade.

Ironicamente, esse mesmo processo pode fazer uma fake news autêntica ganhar uma aceitação que não merece. Se a fake news adula sua crença – pronto, é verdade. Da mesma forma que a verdade vira fake, o fake também vira verdade. Mais uma vez, o viés é mais importante do que a informação.

Dessa forma, o mundo político se afoga em fake news e se dissolve em uma “absoluta relatividade”. O que é fake para uns não é para outros. A verdade agora é relativa, subjugada à vontade de crer. E a única crença possível é a de que conspiram politicamente contra nós: sejamos sempre vigilantes.

Diante disso, o que fazer? Como vamos nos livrar dessa armadilha? Abandonando o conceito de fake news. Simples assim. É claro, ainda precisamos estar atentos à veracidade e ao viés da notícia. Ceticismo e desconfiança sempre podem ser saudáveis. Mas o termo fake news terminou contaminado demais para isso.

Insistir em fake news pode trazer mais prejuízos do que benefícios. O conceito é espetaculoso demais. Pode ensejar censura, controle da informação. Além disso, é tecnicamente impreciso. Sempre haverá o momento em que o conceito ensejará injustiças.

Prejuízo maior vai ocorrer quando políticos e grupos capturarem o conceito. Quando isso acontecer, serão eles que decidirão o que é verdadeiro. Longe de enriquecer o debate político, isso somente o enfraquecerá. O benefício jamais compensa o risco.

Talvez seja melhor buscar algo como “real news”. Pode ser que isso nos permita fazer diferente. O critério do que é falso agora é político, subjetivo demais. Precisamos retornar aos critérios do que seja tecnicamente verdadeiro. Pode ser uma das poucas chances de resgatar o ideal da objetividade.

É claro, isso não pretende ser uma solução definitiva. É apenas uma sugestão para o indivíduo começar. O que está em jogo não é a reputação do seu partido ou o respeito à sua convicção. Há algo muito mais fundamental: o direito à verdade. Em busca desse direito, a dúvida, não a fé, é o que irá nos salvar.

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