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Pirate Coelho ou criatividade destruidora

Inovação tem o poder destrutivo de criar. A pirataria digital-online no mundo da música (e da literatura) explica como.

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Inovação cria ou destrói? A resposta é menos óbvia do que parece. Por um lado, sem dúvidas é um belo esforço construtivo. Mas costuma chamar mais atenção pelo rastro de estragos e de prejuízos que pode deixar.

A inovação talvez seja uma das contradições mais intrigantes da atualidade. Ela cria e ao mesmo tempo destrói quem não se adapta a ela. A história mais ilustrativa disso ainda é o estardalhaço digital no mercado da música – que em breve será a do mercado de literatura.

No mundo musical, houve um tempo em que o tédio era a regra. Você esperava as novidades musicais surgirem no rádio ou na tevê. Se gostasse da novidade, saía em busca do disco numa loja. E ouvia a música em casa, lendo as letras no encarte. (Sim, isso era muito brega.)

Se fosse mais alternativo, você podia procurar outras formas de se informar sobre música. Havia fanzines e revistas alternativas. Havia o movimento underground, onde artistas vendiam suas fitas-demonstração. Isso dependia de sua “tribo”. (E sim, falar de “tribo” é muito brega.)

Verdade seja dita, tudo isso podia ser bastante lento. E mesmo com a digitalização da música em CDs e em kits multimídia. Muitos dizem que era melhor. Parodiando o poeta, tempo infeliz!, e nem sequer me dou conta disso; pois é dessa ignorância que se faz a minha saudade.

Possibilitado pelo digital, o mundo online nos libertou dessa lerdeza frustrante. As novidades passaram a chegar com rapidez. Tevê?, rádio?, jornal? Todos lentos demais, busque na Internet. O tédio que antes era regra acabou se tornando exceção.

Até que a combinação digital-online fez o mundo perder o controle. Tudo caminhou ao extremo de não se querer mais pagar por música. A bagunça começou com o Napster, serviço de compartilhamento digital. Desde então, pirataria virou regra.

É claro que isso beneficiou artistas. Bandas passaram a contar com recursos de divulgação amplos e acessíveis. Só é underground quem quiser. Ou melhor, quem puder: parodiando Andy Waroll, nessa era digital-online, todos seremos anônimos por quinze minutos.

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Tudo isso obviamente impôs um custo em destruição. O lucro que se obtinha com vendas de gravações acabou. Fim das lojas de disco. Fim de selos das gravadoras. Fim dos discos de prata, de ouro. Ganhar dinheiro com música, só mesmo com shows ou com direitos autorais.

Bandas como o Metallica protestaram contra a mudança. Demoraram a entender que não tinha volta. Enquanto isso, bandas como o Radiohead abraçaram o mundo novo. Lançaram um álbum inteiro online, que podia ser baixado pelo preço escolhido – inclusive de graça.

Depois de incertezas e deslizes, o mercado musical se estabilizou. Sumiram os álbuns. Bandas aprenderam a lucrar com música “a granel”, vendidas em separado. Lucro também era possível por meio de concessão de músicas em serviços baratos, como o Spotify. Além disso, a pirataria digital permite ao artista obter promoção espontânea.

Ainda há quem não queira pagar por música. Por exemplo, ninguém paga pelo que ouve no YouTube. Mas se não pagam pelo produto, significa que são o produto: seu consumo gera estatísticas para o marketing de bandas e gravadoras. Além disso, fazem o som cair no gosto.

E a literatura? Embora mais lenta, a pirataria também impõe ali seus reveses. Usuários compartilham livros digitalizados como se faz com músicas. É cada vez menor a disposição de pagar por livros. Nem sequer a literatura acadêmica escapou desse “piratodigitalismo”. O SciHub, por exemplo, distribui artigos de graça.

E como reagem autores e editoras? Da pior forma possível: abominando a pirataria. Atitude melhor teve o escritor Paulo Coelho. Ele usa o pseudônimo “Pirate Coelho” para incentivar a pirataria digital de suas obras. O motivo é inteligente. A pirataria digital o tornou conhecido no mundo.

A música e a literatura evidenciam como criar pode ser também destruir. Foi o que ocorreu com a combinação de digital-online. O mercado musical conseguiu se reestruturar. Enquanto isso, o mercado literário permanece exposto aos efeitos dessa criatividade destruidora. Ainda não surgiram nele soluções como um Spotify. E Pirate Coelho é exceção.

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