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“Roubartilhando” a autoria do seu texto

Tem certeza de que suas ideias são mesmo suas? A Internet diz que não.

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Inventar palavras é quase inescapável à Internet. A experiência é única. Ela precisa criar verbos como “blogar” e “tuitar” para expressar seu universo. De todas essas palavras, a minha preferida ainda é “roubartilhar”, roubar e compartilhar. Com certeza é a mais precisa para descrever como surge o conteúdo online – e, quem sabe, como surgiu todo o conteúdo de nossa história intelectual.

A palavra possui certa frequência nas redes sociais. Cedo ou tarde algum amigo irá pedir licença para “roubartilhar” sua ideia. Idealmente, seu amigo irá copiar e colar o texto, pronto. Por consideração, ele pode citar sua autoria, tirando um pouco a velocidade do texto. Pode ser difícil saber se esse sacrifício de velocidade vale a pena ou faz sentido.

Uma vez na Internet, talvez seja melhor não nos incomodarmos muito com a prática de “roubartilhar”. Com ou sem intenção, compartilhamos ideias na Internet como se fossem nossas. Pode ser fácil concluir que “copiar e colar” é o processo básico de criatividade online. Ironicamente, pode ser o mesmo processo de tudo pensado ou escrito até hoje.

Antes de prosseguir, vale a pena lembrar que respeito à produção alheia não se discute. Plágio é crime. Mesmo assim, a prática de “roubartilhar” enseja uma daquelas divertidas “angústias de laboratório” que costuma ocupar a moçada da linguística e da comunicação. Dessa vez a angústia diz respeito à chance de alguém ser o verdadeiro autor daquilo que escreveu.

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Poucas vezes percebemos, mas a verdade é que jamais falamos por conta própria. Nossas ideias não são exatamente nossas. Quando dissemos “em minha opinião”, queremos dizer “na opinião de alguém que li ou ouvi”. Carregamos a ideia de forma tão íntima, que esquecemos que ela teve origem em algum lugar fora de nós.

O mesmo acontece com textos. Eles são basicamente recortes retirados de outros textos. Combinados, esses recortes formam algo novo e inédito. Escrever é acima de tudo citar, mencionar, parafrasear. A autoria solitária é um ideal romântico, idealista. Em toda nossa história intelectual, “roubartilhar” ainda é a regra.

Fora do laboratório, lembramos mais uma vez que propriedade intelectual é protegida por lei. Respeite a autoria dos outros. Cuide para que a sua seja respeitada. Mesmo assim, essa “angústia” talvez seja mais prática do que gostaríamos. A Internet desafia – e quem sabe destrói – o ideal da autoria própria.

Esse processo está longe de ser apocalíptico. Em sites como a Wikipedia, a autoria é menos preocupante do que a qualidade do conteúdo. Arquivos digitais elevaram a rapidez da criatividade. Paródia, pastiche e colagem são práticas inescapáveis. É fácil deduzir que as pessoas estão se acostumando a isso.

Resta saber a capacidade de os autores aguentarem o “roubartilhamento”. A frustração diante da prática com certeza também é frequente. Como chamar esse sentimento? A Internet está nos devendo a invenção dessa palavra.

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