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Tempo, dinheiro – e angústia

Enquanto gastamos dinheiro, o tempo está nos gastando.

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Metáforas não representam a realidade, elas criam a realidade. Muitos linguista concordariam. É claro, nem sempre essa mágica funciona. Ela falha quando a metáfora é questionada. Isso acontece, por exemplo, quando verificamos se realmente “tempo é dinheiro”.

A comparação entre tempo e dinheiro vem de Benjamin Franklin. Com ela, o autor quis orientar jovens comerciantes a investir seu dia da melhor forma possível. A metáfora pode ser útil para organizar nossas prioridades. Mas até onde seria realmente praticável?

Comparar tempo e dinheiro leva a uma conclusão óbvia: ambos são distintos. O que importa, no entanto, é o caminho que conduz a essa conclusão. Entender como o tempo e o dinheiro são diferentes pode ser um verdadeiro exercício existencial. Revela como a condição humana impõe mais angústias do que gostaríamos de lembrar.

Pode o tempo cumprir as principais funções do dinheiro? Impossível. Dinheiro pode ser trocado por produtos e serviços. Além disso, permite saber o valor das coisas. E também serve para estocar riqueza. Enfim, dinheiro compra, vende, poupa.

Sinto muito: nenhuma dessas funções do dinheiro pode ser cumprida pelo tempo. Não podemos usar tempo para pagar uma casa ou uma roupa. Não faz sentido medir valor algum pelo tempo que exige. E não podemos guardar tempo em uma poupança ou em um cofre.

Talvez essa seja o aspecto mais angustiante: o tempo não se acumula. Ele somente se desgasta. “Ganhar tempo” é uma mera expressão. O dia não ganhou horas a mais. O ano continua com a mesma quantidade de minutos, de dias, de meses.

Neste caso, o que a gente pode fazer do tempo? É mais fácil pensar no que o tempo pode fazer da gente. Temos dificuldade de nos servir dele. Pelo contrário, somos nós que o servimos. Estamos sempre tentando recuperar o tempo perdido — mas tempo perdido não se recupera.

O tempo obriga a tomar decisões “antes do tempo”. É o recurso mais escasso e perecível que existe, impossível de conservar ou de reter. Por tudo isso, quisera que o tempo fosse dinheiro. Infelizmente, só mesmo na metáfora. Fora dela, a regra é dura, mas é regra. Enquanto gastamos dinheiro, o tempo está nos gastando.

Não sendo possível alterar as regras do tempo, fiquemos com as regras de etiqueta sobre o tempo. Trate o tempo dos outros como se fosse muito importante. Por sinal, obrigado pelo tempo de leitura. Que o texto não tenha feito o leitor perder tempo.

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