Texto e voz: uma rixa

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Mais uma daquelas postagens lamentando os males da vida moderna. A parte mais curiosa usava do texto para criticar o hábito de… mandar textos. Seu relacionamento vai existir friamente por meio de mensagens de aplicativos, desabafa o autor. Enquanto houver textualidade, não haverá pessoalidade.

Diante desse pessimismo, dá até uma nostalgia ingênua de quando e-mails e SMS chegaram à vida cotidiana. Escrever nunca tinha sido tão sexy. Era um ato social. Demandava etiqueta. Podia até mesmo ser critério de paquera: avaliar pretendentes incluía saber se escreviam de forma correta.

Tempos depois, surgiram os smartphones. Os aplicativos. As timelines. Ficou fácil encontrar opiniões desfavoráveis e até mesmo apocalípticas sobre a distância humana. Textos afogaram o contato direto. Escrever voltou a ser ato frio, informal, desumano.

Escritores mais filosóficos sabem que essa rixa entre voz e texto é clássica. A vitória costuma ser dada à voz. Escrever é um tabu. Cartas de amor, poemas apaixonados – nada disso conseguiu redimir os textos de sua suposta frieza. Se é escrito, então é fingido. E é também covarde: por que texto ao invés de “mostra a cara”?

Se levada a sério demais, essa rixa causa até mesmo uma curiosa “angústias de laboratório”. Não iremos longe sem textos. Produzimos realidade por meio da escrita. Aprendemos realidade por meio de leitura. Bibliotecas criam nações. O mundo é um texto. Banir a textualidade seria o fim.

Mas deixemos o laboratório e voltemos à filosofia da escrita. Por que essa rejeição ao texto? E por que essa preferência pela oralidade? A linguística de Ferdinand de Saussure oferece uma resposta interessante. Isso acontece por uma mera preferência: vilanizamos o texto porque sim.

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A voz sai de dentro de nós. Dá a impressão de que “vem do coração”. O texto é externo. Demanda ferramentas como tinta, papel, teclado. Podem facilmente ser enviados de um lugar a outro. É fácil se esconder atrás deles. Romper um relacionamento com um e-mail é mais cômodo do que fazer isso pessoalmente.

Vencendo essa preferência, pode ser fácil perceber que o texto também emerge de nós. Eles são uma invenção humana. Antes da voz, antes da roda, havia o desenho nas cavernas: uma forma primitiva de registro textual. Essa explicação é de Jacques Derrida.

Além disso, a oralidade também é uma criação humana. Não fomos projetados para falar. Usar a voz está longe de ser um ato natural. Antes, foi uma maneira de subjugar a natureza, como fazemos a seres vivos. Ao falar, podemos criar textos usando poucos recursos. Um substituto pobre. Quem explica é Saussure.

E o que isso tem a ver com romper um namoro por meio de aplicativos? Certo, admito que a linguística pode ser abstrata demais. Se for o caso, a etiqueta oferece uma explicação mais fácil. Enviar recado é deselegante. O melhor é fazer tudo cara a cara, mesmo que seja constrangedor. Faz parte do ritual, simples assim.

Mas o problema não é o texto, é a tecnologia!, alguém contestaria. É ela que cria distância entre as pessoas. Tanto faz: enviar mensagens à distância ainda é uma tecnologia essencialmente textual. Por trás do meme, por trás da rede, lá está o texto. Se no começo era o verbo, o verbo ainda é o deus.

De qualquer maneira, a linguística e a etiqueta concordam: preferir voz ao texto é apenas uma convenção. Apesar dessa preferência, o texto é inescapável. Todos que vivem o suposto “apocalipse” da era digital sabem disso. Mas não precisamos nos preocupar. Não é a primeira modernidade que enfrentamos. Vamos todos sobreviver.

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