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Uma arte para conversar sobre política

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Sobre as mesas de almoço, televisores com o noticiário da tarde. A maior parte aborda política. Surgem comentários. O momento é delicado. Custa pouco para que o paladar saia ferido. Estão unidos ali dois elementos que podem retardar a digestão: conversa e política.

Conversar é um dos atos sociais mais prazerosos. Ou melhor, deveria ser. É fácil desfrutar dessa satisfação quando o assunto é moda, literatura, filosofia. Pode ser difícil ter essa mesma satisfação ao se falar de política.

Pode haver bons motivos para isso. Política estimula o extremismo. O assunto é complicado. Carl Schmitt dizia que o conceito de político é basicamente o de “amigo” e “inimigo”. Política enseja disputa. Só se conversa sobre política sob o efeito de adrenalina.

Nesse caso, como lidar com um assunto cuja base é fazer amigos ou inimigos? Pode ser difícil. Mas é preciso tentar. Cedo ou tarde, conversaremos sobre política à mesa do almoço. É inescapável em um país onde a política determina tudo.

Uma solução breve e eficaz é formar clubes de conversa entre pessoas que concordam entre si. Nada mais seguro – e com certeza entediante. Evitar opiniões divergentes evita confusão, mas nos impede de aperfeiçoar nossa própria opinião sobre o assunto.

Além disso, essa solução pode também ser impraticável. Muitos amigos, familiares e colegas possuem opinião política diferente da nossa. Cedo ou tarde essas opiniões emergem. Fugir nem sempre será possível. Talvez seja melhor se precaver com uma solução melhor.

Mas onde encontrar essa solução melhor? Teorias como a de Schmitt não ajudam. É imprudente render-se à ideia de que política é guerra. Será melhor abandonar as teorias. Para conversar sobre política, tem sido mais necessário recorrer às regras mais elementares de etiqueta.

Essas regras costumam ser desprezadas por quem se diz “politizado”. Dizem que política envolve ética; e que ética não se relaciona com etiqueta. Por outro lado, elegância é uma arte necessária em um contexto que demanda cordialidade. É o caso de uma conversa.

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O clássico do assunto ainda é Cícero. Suas dicas são atemporais. Use tom de voz moderado. Não interrompa. Fale apenas o bastante, especialmente se há ansiedade em tomar a palavra. Seja sério em temas pesados e alegre em temas leves. Não fale mal pelas costas.

As dicas de Cícero são infalíveis, mas não ensinam sobre como conversar especificamente sobre política. A “arte” sobre o assunto ainda não surgiu. Até que surja, é preciso buscar algumas regras para ela. É o que faremos aqui.

Inicie dando ao interlocutor a “presunção da boa fé”. Nada do que ela esteja dizendo é necessariamente permeado de intenções malignas. Não precisa se sentir agredido por uma opinião política divergente.

Permita que seu interlocutor fale. Tenha respeito por suas considerações. Não ria, não zombe, não se ache superior. Acima de tudo, não se ofenda de maneira gratuita. Mais uma vez, opiniões divergentes da sua não são, necessariamente, declarações de inimizade.

Se encontrar contradições no argumento do interlocutor, permita que ele as perceba por si só. Faça perguntas até que não haja mais resposta. Se isso não acontecer, tudo bem. Apenas tome cuidado: esse era o recurso favorito de Sócrates para zombar de seus interlocutores.

Por outro lado, se revelarem contradições em seu argumento, não se sinta ofendido ou agredido. Admita com elegância que não possui solução. Comente de forma elogiosa a nova perspectiva. Prometa que vai pensar no assunto.

Seja cordial. Quando fala de política, você concordou em ouvir a opinião alheia. Receba essa opinião. Faça seu melhor esforço para corresponder à confiança que seu interlocutor depositou em você para falar desse (complicado) assunto.

Caso a agressão surja – e é comum que isso ocorra –, pode ser o momento certo para trocar de assunto. Isso ainda é uma conversa. Não é discussão, debate, disputa. Nesse outro contexto, as regras são diferentes.

É claro, nada disso pretende ser uma solução definitiva. Quem sabe, muitas dessas dicas possam ser até mesmo impraticáveis. Apesar disso, é preciso tentar. Especialmente fora do esquema teórico amigo-inimigo.

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