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Vinho brasileiro ganha uma confraria virtual

O vinho, no Brasil, conquistou um mercado que cresce a cada dia

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Nádia Alcalde

Vinho, em alguns países, principalmente na Europa, é produto de consumo cultural. Não há refeição que não seja acompanhada por uma bela taça da bebida. Já não podemos dizer o mesmo do Brasil.

Apesar de estarmos bebendo cada vez mais e melhor, o vinho, por aqui continua elitizado. Consome-se muito pelo rótulo, sem, realmente, compreender o que está sendo servido.

Mas este quadro está mudando, e isso graças a alguns entusiastas do vinho.

Apesar de a importação ter sido fechada até os anos 90, e tudo isso ainda ser muito recente para os brasileiros, a abertura de espírito e curiosidade pelo tema tem animado os empresários do ramo.

Já existe, hoje, no mercado, lojas especializadas em rótulos nacionais, wine bar, sites e blogs. Todos comprometidos com o vinho do país. E não é para menos. Segundo dados da Ibravin – (Instituto Brasileiro do Vinho), entre 2008 e 2015, o volume de comercialização de vinhos finos e espumantes aumentou 46% no Brasil.

Que o diga Douglas Chamon, enófilo e amante do vinho há 25 anos. Além de um blog especializado no assunto, ele comanda um grupo pelo aplicativo do “whatsapp” com mais de 150 participantes.

A presença do vinho chileno e o mercado nacional

A Confraria do Vinho Brasileiro, como é chamado o grupo, realiza compras coletivas e discute questões técnicas de viticultura e enologia. Douglas, atualmente, cursa Viticultura e Enologia no IFRS, em Bento Gonçalves.

Douglas Chamon: enófilo e amante do vinho há 25 anos, ele comanda a confraria virtual

Ele destaca uma dificuldade que o mercado enfrenta para vender a bebida produzida no Brasil, para o brasileiro. “É a questão do enólogo estar muito distante do consumidor final. Busco quebrar esta barreira. Repasso aos membros dos grupos, informações técnicas dos processos que envolvem a viticultura e a enologia. Isso é muito valorizado por todos”.

Mas há ainda um grande caminho a ser percorrido. A chegada dos vinhos do “novo mundo”, e, em especial, dos chilenos, só ajudou na popularização do vinho. Mas, para quem entende do assunto, não se trata apenas disso.  “Esta mudança teve um aspecto positivo. Tornou o vinho uma bebida acessível financeiramente, e fácil de beber, expressão usada pelos novos consumidores. O lado negativo foi a institucionalização da ideia de que estas características são as ideais para um bom vinho”, ressalta Chamon.

Não precisamos andar muito por aí para perceber que as adegas estão cheias de rótulos chilenos. A cada dez vinhos que eu vendo, sete são do Chile”, afirma a sommeliére Tatiane Lima.

Para ela, fica difícil competir com os nacionais. O cliente procura custo-benefício, e o custo dos vinhos chilenos é bem mais baixo que o do nacional. Então, eles chegam com melhores preços nas adegas”.

De acordo com Mário Pablo Silva, presidente da Wines of Chile, o Brasil é um dos principais mercados para o vinho chileno. Está ao lado dos Estados Unidos e da China. A Wines of Chile é uma associação responsável por divulgar os vinhos chilenos no mundo.

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Segundo Mário, 53% dos vinhos importados consumidos no Brasil são do Chile, que ocupa o primeiro lugar à distância. Em seguida está a Argentina, com 18% das garrafas importadas.

Em contrapartida, muitos dos vinhos produzidos aqui no Brasil não estão à venda nos supermercados e lojas especializada. Isso torna ainda mais difícil a competição e o conhecimento do público pelo produto.

Centenas das vinícolas brasileiras se enquadram como micro e pequena empresa. Não têm produção suficiente para atender às exigências de quantidade e preço exigido pelas lojas. Dessa forma, muito vinhos nacionais só são encontrados na própria vinícola, ou nos sites das empresas.

Vinho brasileiro: mercado a ser conquistado

Apesar da tendência de mercado de aumento do consumo de vinhos finos brasileiros, para Douglas ainda existe muito a conquistar.

“Lembro-me de que, nas décadas de 1990 e 2000, eu costumava ser ridicularizado por ser apreciador dos vinhos brasileiros. Mas o consumo do vinho e do espumante fino brasileiro se amplia a cada ano. Isso resultou na maior qualidade de nosso produto, e na redução da discriminação”, afirma o enófilo.

Ele afirma ser um equívoco dizer que o brasileiro gosta mais do vinho que é conhecido como suave.

“É comum dizer que o brasileiro gosta de vinhos comuns, doces, leves, de uvas comuns (americanas). Só porque este estilo é o mais consumido. Isto provoca uma análise equivocada. Mesmo em menor quantidade, amantes de vinhos finos, de maior qualidade, têm uma participação grande no mercado. Não em volume de consumo, mas em valor agregado de produto”, diz Douglas.

Em menos de três anos, ele já movimentou mais de R$ 600 mil com os projetos de compras coletivas dos vinhos nacionais.  Douglas é uma espécie de “wine hunter”, profissional que desbrava o imenso universo do vinho, atrás de um diferencial. Mas trata-se, no caso, apenas de vinícolas nacionais.

Douglas, faz a visita, degusta os produtos e depois repassa uma descrição técnica de suas características para o grupo. Então, as pessoas fazem os pedidos, individualmente. “Tivemos pedidos que variaram de 50 caixas a mais de 100 caixas de vinhos e espumantes de cada vinícola”. explica Douglas.

Apesar do preconceito, o enófilo brasileiro está mudando o modo de ver o vinho nacional. Mas o consumo ainda é baixo, e distante da realidade de países europeus e de alguns vizinhos do continente americano.

Não não há dúvida de que inserir o vinho nos hábitos do brasileiro é um dos grandes desafios que os produtores e empresários do vinho ainda enfrentam.

Nádia Alcalde é jornalista e sommelière certificada pela Wine Spirit Education Trust. Ela assina um blog e um canal no youtube chamado: “Dona da Adega”.

Para saber mais sobre os projetos desenvolvidos pelo Douglas Chamon, acesse:

http://www.adegadochamon.com/home.html

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